Sidilene Antônia Mudesto

Mulher negra de 43 anos, que trabalha como nutricionista na periferia de São Paulo – Capão Redondo – há 12 anos.

Precisamos falar sobre racismo e o quanto ele é prejudicial para nossa sociedade. Neste artigo eu converso com Sidilene Atônia Mudesto, uma mulher negra de 43 anos, que trabalha como nutricionista na periferia de São Paulo – Capão Redondo – há 12 anos. Uma das situações motivadoras desse bate-papo foi a morte do norte americano George Floyd. Este homem negro foi assassinado friamente por um policial branco que ficou com seu joelho em cima do pescoço de Floyd por 8 minutos e 46 segundos enquanto aquele suplicava por sua vida 11 vezes clamando que não conseguia respirar. Nesta entrevista vamos dar voz ao lugar de fala de Sidilene. Através de suas experiências de vida refletiremos sobre como nos dias atuais se tornou ainda mais necessário discutirmos sobre racismo

Pra você racismo existe?

Existe e em alguns momentos ele é velado, estruturado, mas ele existe. É que a gente pensa que foi uma brincadeira… A gente aprendeu a lidar com isso. Eu acho que a força que a gente tem dentro é tão grande que às vezes recebemos uma agressividade e você pensa “será que foi mesmo? Será que ele quis dizer isso?”, como que conota isso para a gente? Mas ele existe sim.

E a partir desta vivência, qual seria a definição de racismo para a Sidilene?

Racismo para mim é falta de amor. É falta de amor porque quando a característica, não só a cor, sobressai ao que eu sou como pessoa isto é para mim totalmente falta de amor. Eu acho que a pessoa não tem respeito e amor por ninguém quando ela pratica racismo.

O dicionário define racismo como: 

  1. Conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias.
  2. Doutrina sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras.
  3. Preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente, geralmente considerada inferior.
  4. Por analogia, atitude de hostilidade em relação a determinada categoria de pessoas.

Percebemos que o racismo tem um pressuposto no qual existe uma raça, um determinado grupo de pessoas que possui superioridade e está acima, no sentido de valor, de um outro. 

O racismo já trouxe muitos problemas na história humana e muitas guerras já foram travadas por isto. Em todos os continentes vemos relatos de massacres de povos e não existe um país que não tenha sofrido com o racismo ou que não tenha seu solo manchado pelo sangue de escravos. 

Você percebe algum lugar no qual o racismo seja pior? Um ambiente, um país ou mesmo uma região do Brasil?

No Brasil a gente vê muita desigualdade. Eu trabalho na periferia. Se vemos um negro dirigindo um ‘carrão’ alguém olha, a polícia para. Geralmente quando a polícia para fazer algumas vistorias, alguma ‘batida’, é geralmente um negro que eles estão lá, apalpando e fazendo isto de um jeito agressivo… Se você vai em certos shoppings da cidade você não vê um negro trabalhando, é muito raro. Então eu acredito que tem sim alguns lugares em que o racismo é pior. E em contrapartida há alguns lugares também que quando eles veem um negro, acham bonito, eles olham com olhares de encantamento.

Você já sofreu racismo?

Eu já. Eu fui para a Bahia, fiquei alguns dias lá e voltei ‘mais’ negra, mais preta do que eu sou, e fiz “marquinha” de biquini. E certa pessoa na empresa em que eu trabalhava falou “nossa, você̂ queima?”, então eu disse “sim”. E ela continuou: “e quando você̂ queima, arde?”, então eu falei: “deixa eu te falar uma coisa, quando eu me sento no vaso, saí número dois, quando eu corto sai sangue…”. Eu não consegui falar mais nada para esta pessoa. Isso aconteceu há uns 10 anos e está gravado até hoje. O que mais me chocou é que, esta mulher que falou isto, é filha de negra. Pela minha trajetória eu acredito que o racismo é ensinado. Eu passei por isto e consigo lidar bem com isso. Se isto vier de novo eu acredito que consiga lidar novamente. O que é mais gostoso é você ter maturidade de não ser tão agressiva. Porque a agressividade faz isto com a gente, ela faz a gente devolver de repente de um jeito ruim. E vale a pena discutir certas coisas com sabedoria, com equilíbrio, com recursos de fala.

Pela minha trajetória eu acredito que o racismo é ensinado.

Esse racismo já aconteceu no seu ambiente de trabalho?

A gente percebe olhares diferentes. A gente trabalha em uma unidade de saúde, então quando me veem sem jaleco ou sem crachá, pensam que eu possa ser uma mocinha da limpeza. E quando você se apresenta como nutricionista, ou como médica ou como fisioterapeuta as pessoas te olham torto. Você percebe um olhar, de em cima até embaixo, até chegar no seu rosto. O quanto que isto é ruim, deprimente. Às vezes você fala como que ainda pode no mundo existir isso?

George Floyde

Faz poucos dias – 25 de maio de 2020 – assistimos chocados, pelo menos os que ainda possuem um traço de humanidade, a morte de George Floyde homem negro, de 46 anos, morto por asfixia mecânica sob o joelho de um policial branco enquanto clamava dizendo: “I can’t breathe” traduzindo: “eu não consigo respirar…”. 

Sidilene, você viu o vídeo da morte de George Floyd

Vi. Eu confesso que quando vi o vídeo, no dia 25 de maio, a gente já estava sofrendo muito em São Paulo, com as questões da pandemia do Covid-19, estávamos todos muito fragilizados. Mas esta reportagem me chocou muito porque o policial estava em cima dele. E no primeiro momento eu pensei “não quero ver isso porque é muito chocante, muito sofrimento”, e não assisti. Mas depois eu assisti o vídeo e realmente é triste demais, a técnica que ele aplicou é a técnica do estrangulamento. Ele pediu 11 vezes para ele parar, que ele não estava conseguindo respirar e não houve nenhum movimento de respeito contra aquela vida. Independente da cor que estava ali, era um ser humano.

Que sentimentos você tem ao ler esta notícia?

Tristeza. Raiva. Angústia. Dó. Impotência. Sentimentos de dor mesmo. De não conseguir fazer nada. E foi-se uma vida. Foi-se várias outras vidas. Quantas vidas realmente já se foram com atitudes grosseiras como essas? Então isto realmente foi de querer chorar, de fica com um ‘nó’ na garganta. Quando você retorna à este vídeo é forte demais. Eu lembro que virei logo, que sai da página para não querer ver mesmo, porque é uma coisa que machuca. 

Esse acontecido provocou uma onde de protestos pelo mundo. Você acha isso uma forma válida de lutar contra o racismo?

Eu acho. Foram depredados muitos patrimônios, foram invadidas algumas lojas e teve alguns feridos. E tem gente que fala assim: “nossa, mas é muito barulho…”. Eu acho que a gente não pode parar de gritar. Se a gente está falando baixo e as pessoas não estão ouvindo, a gente precisa continuar gritando até que alguém escute. Não sou a favor de agredir, derrubar, destruir. Mas repare a agressividade que é o racismo. Olha o sofrimento que causa em um monte de outras pessoas, inclusive naquelas pessoas que estão lá, tentando defender. Eu acho que tem que continuar gritando sim.

Em um desse muitos protestos manifestantes queimaram a delegacia de Minneapolis na qual trabalhavam os policiais assassinos – sem ninguém dentro do prédio.  Pra você isso é um exagero ou uma reação esperada pelo nível de violência que os negros vêm sofrendo?

Delegacia de Minneapolis – fonte divulgação.

Foi uma reação esperada. A violência ao patrimônio é uma coisa muito ruim. Mas o racismo também é agressivo. É uma violência forte. Então, esses tipos de coisas precisam acontecer. Na realidade eu acho que as pessoas estavam tentando mostrar de forma pacífica as suas inquietações, o que não estavam gostando. Infelizmente aconteceu a queima dos patrimônios, de locais que estavam vazios. Mas eu sinto que o racismo é maior e mais violento que a própria queima dos patrimônios.

Trazendo para nossa conversa uma citação de Angela Davis, uma mulher negra, pensadora, sociológica e filosofa. Ela diz assim:

quando a vida das mulheres negras realmente tiver importância o mundo será transformado.

Você Sidilene, mulher negra, você se acha mais vulnerável ao preconceito racial?

Eu me acho. E é por isso que a voz da mulher negra precisa começar a aparecer, é necessário valoriza está voz mais um pouco. Porque a gente aprendeu a ser um pouco mais agressiva para dar conta de tudo isso.

Uma mulher negra é conhecida por saber dançar, se uma mulher negra não sabe dançar, as pessoas falam: “como não sabe dançar?” Tem que ter o samba no pé. Tem que ter “corpo violão”. Eles olham para a gente e pensam “globeleza” ou a empregada doméstica. E isso precisa mudar. Existem mulheres negras que não tem o samba no pé e existem mulheres negras que tem outros conteúdos.

É um desafio você explicar que o osso da negra pesa mais que o osso da branca, as mulheres negras se assustam. Até elas entenderem que uma negra é linda da maneira que ela é independente do tamanho dela é um processo demorado que busco no atendimento como nutricionista. É algo que tenho que desconstruir o tempo todo no consultório.

Acho que a mulher negra precisa entender o espaço em que ela ocupa. Eu por exemplo tenho três irmãs. A minha irmã caçula é casada com um rapaz branco e ela tem dois filhos de pele clara. Ela mora em um condomínio na zona sul de São Paulo. Certo dia ela estava tomando sol no parquinho com as crianças e perguntaram se ela era babá das próprias filhas… Ela disse que eram os filhos dela, mas esta senhora, que fez esta pergunta horrível, foi insistiu no questionamento se ela era babá das crianças. Então minha irmã disse assim: “então, se a senhora insistir com essa história e vou na delegacia com a senhora. O que te incomoda? Eu ser negra e ter dois filhos lindos ou eu ser negra e morar no mesmo condomínio que a senhora?” É importante para a mulher negra entender a importância do local que ela ocupa.

Você sente falta de, na sua infância, a ausência de símbolos de mulheres negras nas mídias?

Na minha infância, a minha mãe conseguiu ser esse símbolo muito bem. Nós somos três mulheres, somos fortes. Na minha família, temos índios, italianos e negros, e por termos traços mais afinados, pelo cabelo não ser tão crespo, eu ouço: “até parece que você não é negra”. As pessoas falam isto para mim. A minha mãe trabalhou isto muito bem na gente: “você é importante do jeito que é…”. Ela dizia: “você precisa estudar, você precisa buscar o melhor para você e as pessoas precisam respeitar você como ser humano. 

Quando você fizer qualquer trabalho, você precisa fazer o melhor que você pode, independente se é limpando uma casa, limpando um chão, fazendo uma comida, ou atendendo um paciente”. Eu sinto falta de ter referência externa, mas eu tive referência dentro daminha casa que foi a minha mãe. Então para a gente isso foi muito forte, foi muito embasado em casa. A gentefoi para colégio interno e a gente conseguimos nos sair muito bem. 

Meus amigos me chamam de ‘nega’, ‘neguinha’ e é ótimo. Adoro receber este carinho. Quando me chamam de ‘minha nega’ eu respondo ‘oi, tudo bem?’ e o quanto é gostoso escutar ‘nega (negra)’, eu gosto muito e gosto que me chamem de ‘nega’ mesmo. Mas para isto, minha criação fez diferença. E eu sintoque eu preciso ser uma tia forte porque os meus sobrinhos estão crescendo. E quem sabe o racismo não vá mudar? A gente precisa ter esperança. 

O quanto que empoderar a minha sobrinha é importante. Ela tem o cabelo crespo, que é lindo e maravilhoso, e que a cor da pele faz parte, que a estrutura dela é linda e que ela é uma princesa e ela é linda. Ela tinha dois anos quando eu falava para ela: ‘você é negra sim. O seu cabelo é crespo sim. Mas você élinda. E eu já vou te falar isso porque quando alguém falar o oposto, você vai devolver que é meu cabelo é crespo sim e é lindo. E eu faço questão de repetir isso para eles, todos eles, todos os dias para que isto seja fortalecido. Ser negro não importa e não deveria mudar nada. Os meus amigos não me tratam diferente porque eu sou negra. 

Não precisamos, obviamente, sermos negro para lutar contra o racismo, embora o negro tenha um lugar de fala muito maior, muito importante e muito bom para poder discutir este assunto. Quanto que a segregação racial é prejudicial à sociedade e, pior: o quanto que o sexismo é pior. Ele piora mais a situação. Imagina esta separação que é feita, você negro, que tem um pele que chama atenção onde você vai, e você ainda é mulher. A sociedade é machista, a sociedade é racista e você carrega este contexto todo e a gente precisa lutar contra este contexto todo. A gente precisa ensinar as pessoas verem de outra forma, de olhos de dentro da gente.

Você como negra, o que você diria para os brancos que querem lutar contra o racismo, que querem lutar pelo direito dos negros. O que você falaria para esses brancos?

Eu acho que a união faz a força. Eu acho que vale a pena insistir nisto, pois existem pessoas brancas que defendem o negro e lutam por isto e que continuem lutando. Para esse movimento fortalecer e para que isto mude. 

E para o negro que quer lutar contra o racismo, o que você diria?

Não abaixa a cabeça, levanta a cara. É libertador quando você consegue falar, mesmo que sendo agressivo, mas é libertador. Eu já sofri vários assédios e dá um medo. O fato é que as pessoas são extremamente desrespeitosas e maldosas. Eu falo para o “negro”: não abaixa a cabeça, se coloca no lugar no lugar em que você tem de se colocar. Hoje a gente tem que abrir a boca sim, tem que denunciar sim, tem que levar para frente sim. Porque as pessoas precisam começar a respeitar a gente. Já passou da hora. A minha irmã sofreu preconceito quando estava grávida e passeava no shopping. Ela me ligou chorando. Eu disse “eu estou indo te buscar agora”. E eu chorei junto com ela porque eu achei de tamanha maldade, tamanho desrespeito. Uma gestante linda e maravilhosa e negra ser maltratada. Isso para mim, na fase em que ela estava foi difícil, eu chorei junto com ela. Eu disse para ela, ‘por que você não chamou a polícia?’. Ela me respondeu: “eu não consegui, foi tão agressivo que eu não conseguia nem me mexer’. É isso que acontece com a gente. É tão forte o racismo que você fica paralisado. 

Não abaixa a cabeça, levanta a cara.

Uma coisa que, como negra, eu falo sempre é não se sentir inferior a ninguém. Cada um tem um espaço, o sol nasce para todo mundo e estamos todos no mesmo lugar. Em nível de pessoas e estrutura. As pessoas que precisam respeitar a gente. Eu lembro que na minha faculdade eram apenas duas negras em minha sala. E não dá para calar. Negro não pode calar diante dos fatos e também acho que não pode ficar chorando, se lamentando. A gente tem de se empoderar e viver feliz mesmo que, infelizmente, as pessoas se preocupam com a nossa alegria e com o nosso jeito de ser. Precisamos ser fortes e buscar sim apoio. 

Eu gostaria de terminar esta entrevista com a frase do pastor Martin Luther King Jr. falada no dia 28 de agosto de 1963 nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C.  em frente a uma plateia de mais de duzentas mil pessoas. Estas palavras estão presentes no famoso discurso “I have a dream – Eu tenho um sonho” que se eternizou como um dos maiores e mais belos discursos da história dos Estados Unidos. Martin Luther King expressou:

Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter.

Sidilene, quais sãos suas palavras finais?

Eu comecei falando com amor e eu finalizo com o amor. Quando a gente tiver amor, respeito, empatia e se colocar no lugar do outro, independente da cor da pele, do tamanho, do sexo ou do gênero, com certeza iremos ser melhores um com os outros aqui na terra. E que o nosso brilho nos olhos influencie à outros. Que as nossas palavras e atitudes influenciem também. Então, que haja mais amor e que esse amor comece em mim. 

Se você quiser assistir o vídeo desse bate papo segue o link abaixo:

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